Vivemos um paradoxo fascinante. Em nossa vida diária, valorizamos acima de tudo a liberdade individual — a capacidade de fazer nossas próprias escolhas, seguir nossos próprios interesses e construir nosso próprio caminho. No entanto, vivemos sob a autoridade de um Estado soberano, um conjunto de instituições que estabelece leis, cobra impostos e, em última instância, detém o monopólio do poder. Como conciliar essas duas realidades?
Essa tensão não é apenas um detalhe da vida política; é um problema filosófico fundamental. A Modernidade nasceu com a promessa de “emancipação do indivíduo”, mas na prática, ainda convivemos com uma clara “hierarquia entre os representantes das instituições políticas e o restante da sociedade”. Se todos somos livres e iguais, por que delegamos a uma entidade externa o poder de nos governar?
Dois dos maiores pensadores da história, G.W.F. Hegel e o jovem Karl Marx, se enfrentaram nesse debate. Suas conclusões, longe de serem óbvias, são profundamente contraintuitivas e surpreendentemente relevantes para entender o mundo em que vivemos hoje. Prepare-se para ter suas certezas desafiadas.
1. Para Hegel, o Estado Não Limita a Liberdade — Ele a Realiza Plenamente
Nossa intuição nos diz que o Estado é, na melhor das hipóteses, um mal necessário que limita nossa liberdade para garantir a ordem. Hegel vira essa ideia de cabeça para baixo. Para ele, a verdadeira liberdade só pode ser alcançada através do Estado.
Ele argumentava que o que chamamos de “sociedade civil-burguesa” — o mundo da economia, do mercado e dos interesses particulares — é, por natureza, um campo de egoísmo e conflito. Se deixada por conta própria, essa esfera de interesses individuais levaria à desordem e à instabilidade. As “negatividades” da sociedade civil, como o conflito e o arbítrio, precisavam ser superadas por uma força racional e universal.
Para Hegel, o Estado não é um poder externo que nos oprime. Pelo contrário, ele é a manifestação racional e universal dos nossos próprios desejos de liberdade. É a esfera onde a “liberdade substancial” se concretiza, uma “realização ontológica do espírito”. O Estado é a estrutura que eleva nossos desejos particulares a um plano universal, garantindo que a liberdade de um não destrua a liberdade de todos.
Esta narrativa, que vincula os interesses da sociedade civil (particularidade) e estado (universal), adquire sentido dentro do seu sistema uma vez que cada parte desta relação interage com as negatividades da outra, complementando-se mutuamente e promovendo os saltos qualitativos necessários para concretizar e elevar a realização da liberdade a níveis superiores.
Em outras palavras, para Hegel, a sociedade civil com seu egoísmo e o Estado com sua universalidade não são inimigos. São parceiros de dança imperfeitos. A instabilidade da primeira precisa da ordem do segundo, e a rigidez abstrata do segundo só ganha vida ao organizar a primeira. É nesse atrito que a liberdade amadurece.
2. O Líder Ideal de Hegel Não é Eleito, Mas Herda o Poder por Nascimento
E se a forma mais racional de escolher um líder não tiver nada a ver com mérito ou popularidade, mas sim com um acidente de nascimento? Prepare-se, pois é exatamente isso que Hegel vai defender. Para ele, a forma mais racional de governo é uma monarquia constitucional, e o soberano deve herdar o poder por nascimento.
A explicação é, novamente, contraintuitiva. Hegel via a necessidade de o Estado ter uma face individual, um ponto final de decisão que pudesse dizer “Eu Quero” em nome do todo. Essa figura é o “príncipe soberano”. O problema é: como escolher essa pessoa? Se a soberania fosse um cargo eletivo, ela se tornaria um prêmio disputado por facções e interesses particulares, trazendo o caos da sociedade civil para dentro do próprio Estado.
A hereditariedade, para Hegel, resolve esse problema de forma racional. Para ele, a racionalidade muitas vezes significa remover uma decisão importante do caos das opiniões subjetivas. Ao determinar o soberano por um “fato da natureza” como o nascimento, a decisão é retirada do campo de batalha dos interesses egoístas. Isso protege a universalidade do Estado do “arbítrio” e da “instabilidade atomística da sociedade”, garantindo a estabilidade necessária para que a verdadeira liberdade floresça.
(…) esse momento do todo, que decide absolutamente, não é a individualidade em geral, porém é um indivíduo, o monarca.
3. A Crítica de Marx Não Era Apenas Econômica, Mas Sim Sobre um “Roubo Filosófico”
O jovem Karl Marx, inicialmente um seguidor de Hegel, desenvolveu uma das críticas mais devastadoras ao seu mestre. Mas essa crítica não era apenas sobre a monarquia ou a economia. Era sobre o que ele via como um grande “roubo filosófico” no coração do sistema hegeliano.
Para entender isso, precisamos olhar para outro filósofo, Ludwig Feuerbach, que muito influenciou Marx. Feuerbach analisou a religião usando o conceito de alienação: os seres humanos, segundo ele, pegam suas melhores qualidades (amor, sabedoria, poder) e as projetam em uma entidade externa chamada Deus. Depois, passam a se ver como criaturas fracas e pecadoras, dominadas por sua própria criação.
Marx olhou para o Estado de Hegel e viu o mesmo truque: a sociedade projeta seu poder político coletivo em uma entidade externa — o Estado — e depois se ajoelha perante sua própria criação, como se fosse uma força estranha e superior. Para ele, o Estado não era uma entidade racional que nos libertava. Era o resultado da alienação de nossos próprios poderes políticos coletivos. Em vez de ser a realização da nossa liberdade, o Estado era a prova da nossa liberdade perdida. O objetivo de Marx era “desfazer a dicotomia entre social e político”, reunindo o poder que havia sido retirado da sociedade.
A Substância mística se torna sujeito real e o sujeito real aparece como um outro, como um momento da Substância mística.
4. A Solução de Marx: Uma “Democracia Radical” que Supera o Próprio Estado
Se o Estado hegeliano era o problema, qual era a solução de Marx? Não era simplesmente eleger um presidente em vez de um rei. A proposta do jovem Marx era muito mais radical: uma “verdadeira democracia” que superaria a própria existência do Estado como o conhecemos.
Para Marx, “democracia” não significava apenas o direito de votar a cada quatro anos. Significava superar a própria separação entre o Estado e a sociedade. Em uma democracia radical, a soberania não é transferida para representantes ou para um monarca; ela é exercida diretamente pela própria sociedade. A política deixa de ser a profissão de alguns para se tornar a atividade consciente e coletiva de todos.
Isso se inspira no conceito de “consciência genérica” de Feuerbach. O que isso significa? Pense da seguinte forma: um animal age por instinto individual ou de bando. Feuerbach e Marx acreditavam que a humanidade tem uma capacidade única: agir conscientemente não apenas por si mesma, mas pelo bem da “espécie” como um todo. Uma “consciência genérica” é quando a política se torna a atividade em que a humanidade, coletivamente, toma as rédeas de seu próprio destino, sem precisar terceirizar essa tarefa para um rei ou um parlamento. O objetivo final era, portanto, a “superação completa e absoluta do Estado como ente soberano sobre a sociedade”.
Conclusão: Uma Pergunta Que Permanece Até Hoje
O confronto entre Hegel e Marx nos deixa com duas visões radicalmente opostas. De um lado, Hegel defende o Estado como a estrutura racional que nos eleva acima do nosso egoísmo e realiza nossa liberdade em um patamar superior. De outro, o jovem Marx denuncia o Estado como nossa própria força coletiva alienada, uma criação que se voltou contra nós e que precisa ser superada para que a verdadeira liberdade seja reconquistada.
Esse debate, travado há quase duzentos anos, nunca foi tão atual. Ele nos força a fazer uma pergunta fundamental sobre nossa própria realidade. No século XXI, a complexa máquina estatal é a guardiã da nossa liberdade, como pensava Hegel, ou uma força alienante que ainda precisamos superar, como sonhava Marx? E o que significaria, hoje, uma “democracia verdadeira”? A resposta, talvez, defina o futuro da nossa própria liberdade.


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